A paisagem e os primeiros habitantes
“Antes das cercas, dos mapas e das escrituras, a natureza já havia construído as bases sobre as quais toda a história da Fazenda Santana seria possível.”

Com cerca de 66 quilômetros, o litoral do Piauí é o menor do Brasil, mas concentra uma riqueza ambiental, geológica e histórica muito maior do que sua extensão sugere. Entre a foz do Rio Ubatuba e a Barra das Canárias, convivem o Delta do Parnaíba, rios de maré, lagoas costeiras, manguezais, dunas móveis, restingas, campos inundáveis e extensos carnaubais. É nessa paisagem, entre a Lagoa Santana e o Rio Timonha, que se encontra a Fazenda Santana.
A formação desse território começou no período Quaternário, quando sucessivos avanços e recuos do mar, somados aos sedimentos dos rios, às correntes e aos ventos, formaram dunas, restingas, lagoas e ilhas. O Delta do Parnaíba nasceu desse processo e passou a influenciar toda a dinâmica do litoral. Mesmo fora de seus limites diretos, a fazenda foi moldada pelas marés, pelos sedimentos e pelas variações sazonais das águas.
O Rio Timonha funcionou desde muito cedo como uma estrada natural entre o interior e o oceano. Já a Lagoa Santana, integrada ao sistema estuarino dos rios Timonha e Ubatuba, renova-se com as marés e sustenta uma ampla biodiversidade. A presença constante da água favoreceu os manguezais, os cajueiros, as pastagens e os carnaubais — entre eles exemplares antigos da carnaúba, a “Árvore da Vida” e um dos maiores símbolos do Piauí.

Muito antes da chegada dos europeus, esse território fazia parte do espaço tradicional dos Tremembé, povo indígena que ocupava a faixa costeira entre o oeste do atual Ceará e o litoral do Piauí. Exímios navegadores, conheciam os ciclos das marés, os canais, os bancos de areia, os ventos, as plantas medicinais e as épocas de reprodução dos peixes. O Timonha era um dos principais eixos de circulação entre aldeias, áreas de pesca e locais de coleta.
A vida dos Tremembé baseava-se na diversidade dos ambientes: os manguezais forneciam peixes, ostras e caranguejos; as restingas, frutos e plantas; os carnaubais, fibras, madeira e folhas; e os cajueiros completavam a alimentação na estação seca. Sua principal herança foi o conhecimento de uma paisagem que não precisava ser dominada para produzir abundância. Essa memória permanece na pesca artesanal, na leitura das marés e na relação entre rios e caminhos.

